Julie & Julia, o projeto, o livro, o filme!

Outro dia eu subi na escadinha para fazer uma visita aos meus DVDs, que estão meio abandonados há um tempo. Peguei alguns deles, tirei a poeira que inevitavelmente se acumula sobre as capas entre uma faxina e outra, dei meia dúzia de espirros e tive uma boa ideia: assistir de novo ao filme “Julie & Julia”.

Ah, tenho muitas coisas para falar sobre esse assunto, está difícil saber por onde começar. Acho que vou começar pelo começo, que é sempre uma boa opção.

Em 2009, quando o blog já tinha em torno de 2 anos de vida, ganhei um livro da minha tia Sonia: “Julie & Julia”, de Julie Powell. Lendo a sinopse na livraria, ela achou que o lançamento tinha a ver comigo e resolveu me dar de presente. Eu morava com ela e com minha avó paterna e elas sabiam que eu tinha um blog de culinária, que eu adorava ele mas não levavam a sério quando eu falava sobre isso. Achavam uma coisa de outro mundo, meio fantasiosa, eu imagino.

Apesar de não dar bola para o meu blog, minha tia tinha toda razão quando achou que eu iria gostar daquele livro “em que a moça também escreve um blog de culinária”. A afinidade que encontrei com a história dela foi inacreditável.

Para quem não faz ideia do que estou falando, “Julie & Julia” é um romance autobiográfico de uma moça chamada Julie Powell. Ela estava precisando dar uma sacudida na vida e resolveu encarar um desafio: fazer, em 365 dias, todas as 524 receitas do livro “Mastering the Art of French Cooking”, de Julia Child, e escrever um blog contando todas as experiências vividas nesse projeto. Ela definiu assim, num trecho do livro:

O Livro

Mastering the Art of French Cooking. Primeira edição, 1961. Louisette Bertholle. Simone Beck. E, naturalmente, Julia Child, mulher que ensinou a América a cozinhar e a comer. Hoje, temos a impressão de que Alice Waters criou o mundo em que vivemos, mas foi com Julia que tudo começou, e ela é incomparável.

A Desafiante

Funcionária pública parasita durante o dia, comilona renegada durante a noite. Velha demais para teatro, jovem demais para filhos, e amarga demais para qualquer outra coisa, Julie Powell procurava um desafio e encontrou o que queria no Projeto Julie/Julia. Arriscando seu casamento, seu emprego e o bem-estar de seus gatos, ela se envolveu em uma enlouquecida tarefa. 365 dias. 524 receitas. Uma mulher e uma cozinha caindo aos pedaços em um subúrbio. Até onde isso vai, ninguém sabe…

Julie e Eric, interpretados por Amy Adams Chris Messina

Sobre o Mastering the Art of French Cooking, esse livro é um clássico nos Estados Unidos. Nada menos do que 524 receitas da culinária francesa, escritas por uma americana que calhou de estudar gastronomia na França e resolveu “traduzir” essa misteriosa culinária para uma linguagem fácil para as outras americanas e, não só isso, para a realidade de suas cozinhas. Resumindo: popularizou nos Estados Unidos a culinária mais sofisticada do planeta e virou um marco cultural.

A ideia do blog foi de Eric, marido de Julie. Ela resolveu, então, fazer assim: prepararia os pratos à noite, depois do trabalho e escreveria como foi a experiência em seu blog no dia seguinte, pela manhã, antes de sair de casa. Eu diria que ela foi bastante corajosa, porque essa rotina não é nada fácil.

O filme conta, em paralelo, a história dessas duas mulheres, Julie e Julia, mostrando de forma adorável como suas vidas se cruzam, sem de fato nunca terem se conhecido. Cada uma em sua época, com personalidades diferentes mas de certa forma, vivendo crises parecidas e encontrando na culinária a sua salvação.

Julia Child foi uma celebridade nos Estados Unidos. Seu livro, lançado em 1961 (e que em 1970 ganhou um segundo volume), era um verdadeiro guia de cozinha  para as norte-americanas. Ele a levou a uma carreira de sucesso e pioneira na TV, onde ela apresentou vários programas de culinária por quase 30 anos. Só não durou mais do que isso porque quando começou a escrever seu primeiro livro, Julia já era uma mulher madura.

Julia Child e Meryl Streep

Seu jeito super bem-humorado tornava tudo mais fácil. Você precisa assistir a esses videos que eu selecionei para entender melhor quem ela era.

Ensinando a fazer um frango assado (veja pelo menos o começo):

 Neste outro, a panqueca de batatas cai no fogão na hora de virar e Julia cata tudo com a mão e devolve para a panela, dizendo: “Lembre-se, se você está sozinha na cozinha, quem vai ver?”.

 Essa cena foi reproduzida no filme e é um dos vários trechos em que dá para perceber claramente a grandiosidade da interpretação da Meryl Streep (quem deu vida a Julia Child no cinema). Não foi à toa que ela ganhou o Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar por esse trabalho. Vale a pena, clica aí no play:

 Quem assiste ao programa é Julie (interpretada por Amy Adams) e seu marido Eric (Chris Messina), grande incentivador do “projeto Julie/Julia” e quem ajudou Julie a suportar as suas oscilações de humor durante aqueles 365 dias.

Ótimo, cheguei onde queria.

Li o livro uns meses antes de o filme chegar ao Brasil. Fiquei completamente envolvida por ele. Não eram poucas as coincidências…

Julie foi de uma cidadezinha do interior para NY porque queria ser atriz, mas acabou seguindo outro rumo profissional e vivia insatisfeita com ele. Eu também vim para o Rio por causa do teatro, também segui outra carreira e, naquela época, estava na maior crise com essa minha escolha. Aquele momento em que você se depara com a realidade: eu não sou o que eu queria ser porque eu nem sequer batalhei por isso, então sou isso mesmo que tenho sido e é isso aí. Durante o projeto, ela passava todo o tempo livre na frente do computador ou na cozinha, tudo em função do seu blog. Eu fazia exatamente a mesma coisa (ainda faço, na verdade). Julie viu a audiência do seu blog crescer dia após dia e, ao mesmo tempo em que ficava super feliz, quase não acreditava que aquelas pessoas liam o que escrevia e ainda voltaram para ler de novo. Sentia que tinha um compromisso com essas pessoas, que não podia parar de escrever os posts. Comigo foi exatamente do mesmo jeito e eu sabia direitinho qual era a emoção dela quando lia sobre o crescimento do número de visitas e sobre os comentários dos leitores. É muito empolgante! Aos poucos você quase se convence de que faz uma coisa muito, mas muito importante! Bom, até problema de saúde eu tinha igual a ela, então eu me vi muito em toda a história. Parecia que a autora falava da minha vida, em várias partes.

Ah!! Sem contar que ela tinha um marido que a apoiava até o infinito, um companheiro desses que todo mundo quer. Quando ela sentava no chão da cozinha e chorava de raiva porque não conseguia fazer a receita, ele ia ajudar e a salvava do pesadelo.

A gaveta da cozinha que quebrara duas semanas depois de nos mudarmos e que nunca havia sido consertada de forma satisfatória, acabara de cair novamente, arremessando os talheres da Pottery Barn por todo o chão. Eu comecei a chorar ao ver garfos e facas brilhando aos meus pés. Eric me deu um daqueles abraços tão apertados que são quase uma chave de braço, que é o que ele faz sempre que está tentando me consolar quando o que realmente quer fazer é me bater.

Eu também tenho um exemplar dessa espécie em casa.

Com tudo isso, quando o filme foi lançado, quis ver imediatamente! Fomos ao cinema e: decepção. Essa foi a palavra. Achei que o filme não mostrou bem a personalidade da Julie, a relação dela com o marido, os “perrengues” que ela passava, as emoções que ela viveu escrevendo no blog e por aí vai. A única coisa que achei interessante foi que o filme mostrou muito mais sobre a Julia Child do que eu havia visto no livro. Bom, na verdade o filme não era para ser uma cópia do livro, que é basicamente sobre o projeto da Julie e sim sobre as duas mulheres. Por isso, fiquei com essa sensação de que faltou de um lado e complementou de outro.

Nem preciso dizer que esse tipo de reação é comum para quem lê um livro e depois assiste a um filme inspirado nele, né?

De lá pra cá, o livro foi emprestado para vários amigos, eu comprei o DVD do filme porque queria que ele fizesse parte da minha pequena coleção e Julia Child fez aniversário de 100 anos, em 15 de agosto de 2012. Quer dizer, ela não fez 100 anos porque morreu aos 91, em 2004, mas recebeu muitas homenagens pelo centenário do seu nascimento, inclusive um Doodle:

Doodle Julia Child 100 anos

Nessa ocasião, todos os blogs de culinária fizeram um post sobre Julia Child. Todos. Eu sou chata com certas coisas e uma delas é que não gosto de surfar na mesma onda que todo mundo. Ainda mais porque, na maioria das vezes, me pareceu que as pessoas se sentiram na obrigação de falar do assunto porque o Google apresentou a Julia para todo mundo que não a conhecia. Então, fizeram aquela pesquisa básica na Wikipédia para escrever o post e voilà: “o blog é antenado”. Isso faria sentido para mim se os blogs de culinária tivessem compromisso com a notícia ou se seus autores tivessem mesmo o que falar sobre ela,  um conteúdo especial para acrescentar. Então, como uma nerd cabeça-dura que sou, fiquei bem na minha e guardei o post para um outro dia. Só que esqueci, rs!

Então, voltando ao início do post, eu assisti de novo ao filme. Adivinha o que aconteceu?? Amei desta vez. Não sei se é porque provavelmente me esqueci de muitos detalhes que li no livro ou se abri meu coração, mas o fato é que fiquei toda derretida pela história da Julie de novo.

Se você quer saber se recomendo o filme e o livro, direi que recomendo os dois. Porém, entretanto, todavia, assista ao filme primeiro. O livro é obrigatório, nem pense em não ler!! É uma leitura fácil e divertida, a Julie Powell escreve muito bem.

Você deve estar se perguntando: “Cadê o blog dela, não vai ter link?”. Pois é. Aquele blog do projeto não está mais no ar faz um tempo, eu nem cheguei a ver também. Não sei por que isso aconteceu mas não está mais disponível. Ela criou outro blog, onde você pode ver uma publicação de cada mês (em inglês, claro). Depois, fez mais um blog, mas parece ter parado mesmo de escrever nele, porque não tem nenhuma atualização desde 2010.

O livro que desencadeou tudo isso, Mastering the Art of French Cooking, não tem tradução para o português. Eu acabei de ver que ele está em promoção no Submarino (mas não sei até quando), no box que vem também com o segundo volume. Estou querendo muito comprar, mesmo sendo tudo em inglês – acho que não vou resistir.

O filme é fácil de assistir, como todos são hoje em dia: você pode baixar. Tem também em tudo quanto é locadora, no Netflix e até no Youtube. Mas ó: o Blu-ray tem extras super interessantes e eu só não tenho ele em casa porque ainda não tinha sido lançado quando comprei o DVD. Se você também gosta de comprar filmes, recomendo muito!

Vou deixar aqui embaixo o link de tudo que eu falei, para facilitar a vida caso se interesse em comprar. Também vou incluir o livro que Julia Child escreveu sobre o tempo em que viveu na França, quando estudou culinária no famoso “Le Condon Bleu”. Acho que todos eles poderão te interessar! 😉

 

Livro - Julie & Julia

Livro – Julie & Julia

Julie está em crise. Prestes a completar 30 anos, em um emprego medíocre e sufocada pela pressão crescente para que tenha um bebê, sente-se incapaz de achar um rumo diferente para sua vida. As coisas não parecem favoráveis, especialmente quando ela se vê obrigada a mudar para uma quitinete que prefere chamar de “loft” em um bairro afastado, longe do trabalho e dos amigos. Entretanto, a solução aparece durante uma visita à casa de sua mãe. Sentada na cozinha, pensando em uma solução para sua vida, ela encontra um antigo livro de receitas: Mastering the Art of French Cooking, de Julia Child. Ao folheá-lo, surge a ideia que pode transformar o rumo das coisas: Julie decide preparar a primeira receita do livro que introduziu a culinária francesa no cotidiano das famílias norte-americanas. No entanto, ela não poderia imaginar onde iria parar essa despretensiosa experiência gastronômica. Convencida pelo marido, Julie decide dar início ao Projeto Julie/Julia, no qual deve fazer todas as 524 receitas do livro de Julia Child em um ano – e escrever um blog relatando o feito. Neste poderoso romance autobiográfico, acompanhamos uma lição saborosa entre risos, lágrimas e vexames, onde Julie Powell mostra seu talento incontestável de se conectar com os leitores e comprova por que seu blog tornou-se tamanho sucesso.

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Box Set - Mastering The Art Of French Cooking
Box Set – Mastering The Art Of French Cooking

The perfect gift for any follower of Julia Child and any lover of French food. This boxed set brings together Mastering the Art of French Cooking, first published in 1961, and its sequel, Mastering the Art of French Cooking, Volume Two, published in 1970.

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Blu-Ray - Julie & Julia
Blu-Ray – Julie & Julia

Em Julie & Julia, uma lenda da culinária fornece uma nova receita de vida para uma frustrada funcionária de escritório. As histórias reais de como a vida e o livro de receitas de Julia Child (Meryl Streep) inspiraram a escritora principiante Julie Powell (Amy Adams) a reproduzir 524 receitas em 365 dias e apresentar a magia da culinária francesa para novas gerações. Stanley Tucci (O Diabo Veste Prada) co-estrela esta deliciosa comédia da diretora Nora Ephron sobre prazeres, obsessões e manteiga. Bon Appétit!

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Livro - Minha Vida na França
Livro – Minha Vida na França

Você não precisa ser um gourmet para devorar o livro Minha Vida na França.

Julia Child é considerada a introdutora da culinária francesa nos Estados Unidos, mas como ela mesma revela em suas saborosas memórias, nem sempre foi uma chef de cuisine de sucesso. Após mudar-se para a França em 1948, ela não falava o idioma nem sabia nada sobre o país. Mas, ao ter aulas no renomado Instituto Le Cordon Bleu, descobriu sua verdadeira vocação: a culinária. E para crescer, teve que se impor em um meio dominado por homens, além de lidar com a rejeição de várias editoras para conseguir publicar seu best-seller de culinária francesa, Mastering the Art of French Cooking. Tornou-se uma escritora e apresentadora de sucesso ensinando receitas sofisticadas, de forma pioneira, para milhares de americanos.

Esta história incrível, desta personagem cativante, você irá conhecer no livro Minha Vida na França, que inspirou o filme Julie & Julia, onde Julia Child é interpretada com perfeição pela grande atriz Meryl Streep.

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Mostre isso pro mundo:

Quem escreve

Criei este blog em 2007 como quem não quer nada e ele se tornou a melhor coisa que já fiz na vida! Aqui eu compartilho tudo o que sei sobre culinária, conto minhas histórias e ajudo quem precisa das primeiras lições na cozinha.

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  • Espero que mesmo fazendo 2 meses que você já publicou esta resposta, a loja não tenha fechado. Não desista. =D

  • patricia

    Olá Vanessa
    Acabei de assistir o filme sempre via pra assistir e nunca tinha curiosidade e amei. Fiquei animada em fazer um blog sobre minhas escolhas erradas e frustante. Tenho uma loja de bolos caseiros que esta prestes a fechar por má administração e falta de verba, e as pessoas gostam dos bolos, o de aipim e pamonha de forno fazem sucesso!!! E tudo isso é um sonho e não quero perder, bom li tudo que você escreveue não quero desistir, obrigada.

  • Romeu

    Oi Vanessa!

    Assisti ao filme ontem pela 3ª vez, e parece que cada vez mais vou me apaixonando pela historia. Somente agora fui pesquisar mais sobre a Julia, vi os videos dela e achei impressionante como a Meryl Streep interpretou tão bem a Julia, até na versão dublada a voz é parecida, e sobre a Julie, li o blog dela até o momento do lançamento do filme, da premiere e o after party o qual ela conversa com todos os atores do filme, inclusive Meryl e o Stanley, muito legal mesmo.

    Aí achei seu blog e gostei bastante do seu post e da comparações que fez, tanto da Julie e Julia com a Amy e Meryl, como da sua história com a da Julie. Gostaria de conhecer mais da sua historia, pois não pesquisei bem ainda.
    Mas queria lhe dar os parabéns!

  • Michelle Lansana

    Gente será que é verdade a parte que ela recebe a ligação do cara do jornal dizendo que a Júlia leu o blog da Julie e não gostou?

  • Priscila

    Ahhh outra coisa, vc comprou o livro com as receitas em ingles? Queria comprar, mas queria saber se v testou as receitas… se da pra fazer com os ingredientes que temos disponíveis no Brasil… me responde? meu email está aí! Obrigada!

  • Priscila

    Assisti o filme ontem, pela primeira vez. Hoje já fui correndo procurar o livro pra comprar e achei seu blog falando disso! Muuito legal! É realmente uma história inspiradora e estou maluca pra fazer algo do tipo… me mudei pra Florianópolis faz 2 anos, larguei minha carreira e estou trabalhando com outra coisa…estou nessa… hahahaha… super me identifiquei!

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  • Roberto

    Também gostei do filme, por isso, acabei indo procurar mais informações sobre a tal Julie Powell… que decepção. Provavelmente tu não foste procurar, caso contrario seria impossível não fazer menção no texto, mas o fato é que no próximo livro, que pode ser considerado um precursor da seria 50 tons, ela conta em detalhe um caso que teve, após o lançamento do primeiro livro, e chega a ridicularizar em algumas passagens o então marido Eric. Abs.

  • Gostei do post, já assisti o filme e amei, infelizmente ando sem tempo de ler livros, pois sou professora e já tenho os livros da escola e um outro projeto meu, mas vai ficar na minha lista de livros para ler. Abraço.

  • Vanessa Nunes

    Swyanne, que bom que você consegue perceber isso, porque é muito amor mesmo que eu coloco aqui! 🙂
    Leia o livro. Depois volte para contar!
    Beijos