Dias felizes com minha mãe

Ela estava comigo quando descobri que se colocasse no microondas o leite condensado misturado com Toddy, como gostava de comer, um vulcão entrava em erupção mas a lava era brigadeiro.

Ela me pegou várias vezes em pé na pia para alcançar o pote de açúcar num armário alto. Era para comer com pão, nas primeiras horas da manhã, quando tinha um despertar precoce.

Ela deixava eu ficar de pé na minha cadeirinha para lavar a louça, mesmo que ela tivesse que lavar tudo de novo depois.

Ela me dava a vasilha da batedeira para “lamber” o resto da massa do bolo, que ela deixava sobrar de propósito para eu ficar feliz e me lambuzar bastante.

Ela atendia ao meu pedido e deixava eu comer um prato fundo de feijão fresquinho quando ela terminava de cozinhar, independente da hora que fosse. Eu gostava de molhar o pão.

Ela deixava eu fechar pastéis com o meu garfinho.

Ela me ensinou a colher manjericão no quintal do jeito certo para temperar o nosso almoço. O arbusto cresceu lindo e florido.

Ela me dava uma cenoura crua “para comer igual coelhinho” antes da comida ficar pronta, quando tinha cenouras no almoço.

Ela deixava eu almoçar vendo desenho na sala quando eu queria mas eu preferia mesmo era almoçar na mesa com ela.

Ela comprava balas, biscoitos e todo tipo de guloseimas para eu e meu irmão comermos quando quiséssemos, mas a gente não devorava porque sabia que não iria acabar no dia seguinte.

Ela fazia bolo de morangos com marshmallow no meu aniversário, o meu preferido.

Ela comprava um monte de jabuticabas quando era época, pra gente comer juntas vendo televisão.

Ela aplaudiu minha criação quando chegou em casa um dia e eu estava comendo arroz com ketchup, sentadinha na mesa, com jogo americano e tudo.

Ela fazia um pudim de pão inesquecível, posso sentir o cheiro neste momento.

Ela me ensinou a tomar chá, foi quando eu tomei todos os chás da gaveta e descobri o gosto da carqueja.

Ela colocava a minha fraldinha (paninho) no forno depois de lavada, porque descobriu que assim eu aceitava ela de volta.

Ela gostava de Fanta Uva e eu também.

Ela me levava para comer coxinha com guaraná caçula em uma lanchonete que era bem popular e que hoje é bem frequentada, em Juiz de Fora.

Ela fazia ovo cozido para eu levar de merenda para a escola e até deixava eu levar mandioca frita e outras esquisitices, quando eu pedia.

Ela comprava para mim a empada e a cocada da “Nel”, que vendia quitutes na porta da escola e pegava as crianças na saída pelo estômago.

Ela me deu bandejas inteiras de Kinder Ovo, cada uma vinha com 18 unidades. Eu só queria os brinquedos para a minha coleção.

Ela deixava eu comprar 10 balas de maçã verde quando parávamos na quitanda do Seu Nelson na volta da escola, mas não podia comer todas de uma vez.

Ela deixava eu descascar o alho, com faca de adulto.

Ela também comia miojo e esse foi o nosso almoço muitas vezes.

Ela temperava a pipoca com tempero caseiro e era a melhor pipoca de todos os tempos.

Ela dava um facão na minha mão para eu ir à horta cortar um pé de alface pro almoço – e até deixava eu levar um para a professora, cheio de terra.

Ela me levava junto para as compras no meio da madrugada e era muito divertido ser diferente de todo mundo.

Ela fazia arroz todos os dias e eu aprendi só de ver, mas até hoje uso as mesmas medidas.

Ela tirava um pouco de angu da panela para eu comer molinho, porque depois de endurecer eu não queria mais.

Ela me ensinou a fazer chá de hortelã, com as folhinhas cheirosas do jardim.

Ela fazia pratos com todo tipo de desenhos para me fazer comer quando eu não queria e ainda respondia a todas as minhas perguntas com paciência: “Posso comer o nariz do palhaço?”; “Posso comer o braço do menino?”; “Posso comer o tronco da árvore antes do galho?”.

Ela me ensinou a provar tudo quanto era novidade no prato e me ajudou a conhecer muitos sabores logo cedo.

Ela me dava uma laranja descascada para comer e não se apavorava quando não sobrava nem o bagaço para jogar no lixo.

Ela me explicou que não era verdade que cresceria uma macieira na minha barriga, se eu comesse a semente sem querer.

Ela me pedia para untar e esfarinhar a forma do bolo e não ligava para a sujeira que eu fazia.

Ela me ensinou a cheirar as frutas para ver se estavam maduras e a apreciar a beleza dos aromas.

Ela fazia o melhor strogonoff do mundo e até hoje tento reproduzir o mesmo sabor.

Ela fazia linguicinha frita no almoço e sinto muito orgulho dela por esse desprendimento. Ela sabia que nossa alimentação era saudável e não precisava de restrições.

Ela me ensinou a cozinhar batatas, salsichas e carne de hambúrguer no microondas, para as emergências.

Ela deixava eu fazer o cachorro-quente e minhas amigas achavam ele ótimo.

Ela tentava descobrir a receita de tudo que eu experimentava fora de casa e achava gostoso, para eu poder ter a alegria de comer de novo.

Ela fazia meu misto quente com queijo, presunto e tomate – era muito bom.

Ela me deu um kit de cozinha de brinquedo, para eu acompanhar a “congeleira” quando ela fosse lá em casa. A “congeleira”, por sua vez, me dava farinha de trigo e água, para ficar bem real a brincadeira.

Ela me ensinou a descascar laranja até eu aprender.

Ela me ensinou a abrir lata até eu aprender.

Ela não comia carne vermelha, mas experimentava para verificar o tempero e garantir que a nossa comida ficaria gostosa.

Ela soprava a minha boca quando a comida estava muito quente.

Ela fazia a melhor torta salgada (de pão) de todo o universo e eu sofro porque não tenho a receita e não me lembro das camadas.

Ela me ensinou que um pouco de açúcar no molho de tomate reduz a acidez.

Ela fazia tudo o que eu gostava para servir nos meus aniversários e quase surtava com tanta coisa, mas achava que todo o esforço era válido para me ver feliz e realizada nos momentos mais importantes e inesquecíveis da minha vidinha infantil.

Ela dava a manga com casca na minha mão, sentada no quintal, para eu descascar sozinha e comer com as mãos, com os braços, com a testa, com a barriga, com as pernas, com o chão…

Ela comprava figos deliciosos para mim e dizia: “Adivinha o que eu comprei? É peludinho!”.

Ela me ensinou a comer caqui sem fazer muita sujeira.

Ela pedia para eu tomar conta da panela enquanto “ia ali”.

Ela sempre pedia minha opinião na hora de provar o tempero da comida.

Ela ria quando eu repetia a mesma palavra inúmeras vezes até que seu som ficasse estranho e a palavra perdesse o sentido. Um dia eu perguntei: “Mãe, o que é mesmo queijo? Queijo, queijo, queijo, queijo, queijo, queijo…”.

Ela deixava eu ajudar a enrolar os docinhos e a confeitar o bolo, mas dava um jeito de confeitar enquanto eu enrolava.

Ela colocava no forno o biscoito ruim que imitava o Cheetos – e que era bem mais barato -, aí ele ficava crocante e gostoso.

Ela fazia vitamina de abacate com gotinhas de limão. Eu e meu irmão tomávamos tudo e queríamos mais para o dia seguinte de manhã.

Ela fazia um mingau de maisena mais gostoso do que o meu, acho que é porque mingau de mãe é melhor.

Ela deixava eu nadar na chuva e fazia um choconhaque bem gostoso para eu e minhas amigas nos aquecermos depois do banho. Depois, as mães perguntavam para ela como era o chocolate quente que a filha chegou em casa contando e pedindo para fazer.

Ela fazia bolinhos de chuva quando chovia.

Ela levava um copo de leite quente com aveia para mim na cama, quando eu não conseguia dormir e a noite estava fria.

Ela não gostava que eu comesse duas bananas antes de dormir mas quando eu pedia com jeitinho ela liberava.

Ela se surpreendeu quando eu fiz um mingau de Neston sozinha, numa das manhãs em que acordei mais cedo e resolvi me virar. Eu não tinha altura nem para olhar sobre a panela.

Ela deixou eu fazer coquetéis de fruta para meu aniversário de 16 anos e isso foi o máximo dos máximos de todos os máximos.

Ela me ensinou a comer com garfo e faca desde cedo e a ter boas maneiras na mesa. Eu era uma mocinha linda.

Ela me pedia para lavar o arroz, todos os dias.

Ela deixava eu ajudar a escolher o feijão.

Ela buscava quentinhas no maior restaurante da cidade e eles faziam feijão só para mim, mesmo não tendo no cardápio.

Ela me ensinou a lavar, descascar e cortar todo tipo de legumes para usar nas receitas, afinal eu era a ajudante da cozinha.

Ela flambava coisas com a maior destreza e isso me ajudou a nunca ter medo daquele fogo lindo que saia da panela.

Ela disse que a comida estava boa, na primeira vez que resolvi recebê-la da faculdade com o almoço pronto. Meu irmão reclamou com ela que o purê de batatas estava meio diferente mas ela não contou quem tinha feito.

Ela me ensinou a desenformar bolos e pudins.

Ela pedia para eu hidratar a gelatina.

Ela deixava eu fazer limonada suíça para o almoço e um dia ela acabou ficando boa.

Ela juntava a nata do leite para fazer biscoitinhos.

Ela interrogou o pipoqueiro da porta da escola sobre como fazer o queijinho ficar quadrado e não derreter na hora de fritar, mas as informações dele não funcionaram e, então, ela abriu uma investigação que durou anos. Infelizmente, não teve sucesso e o segredo nunca foi descoberto. Eu amava muito o queijinho – pipoca nem tanto, porque eu engasgava com ela na época.

Ela me levava na “Vó Sinhá” e no “Chalé Suíço”, lá em Juiz de Fora, para comer coisas gostosinhas e até hoje me lembro do cheiro desses lugares.

Ela me ensinou a lavar direito uma folha de alface.

Ela me buscava na escola sorrindo de orelha a orelha e dizia: “Vamos almoçar no McDonald’s hoje.”

Ela deixava eu andar com um canivete quando ia para a roça, para o caso de eu ter que cortar uma fruta que colhesse do pé. Mas ela só deixou e arrumou um pretexto para se justificar, porque quem me deu o canivete foi meu irmão.

Ela “achou ruim comigo” quando me viu nadando de braçadas num depósito de grãos moídos que tinha numa fazenda que visitamos em Piedade e disse “bem feito” quando eu reclamei que o corpo estava todo coçando – mas teria feito a mesma coisa se tivesse a mesma idade que eu.

Ela me ensinou a comer carambolas azedinhas.

Ela me ensinou a testar se o fermento está ativo.

Ela deixava eu comer massa de pão crua na padaria do avô dos meus primos e minha barriga crescia, crescia, crescia.

Ela me levava no parque só para comer algodão-doce cor-de-rosa.

Ela tinha paciência para me explicar o porquê das coisas na cozinha, quando ela sabia.

Ela me dava leite com granola e eu achava muito melhor do que Sucrilhos.

Ela me ensinou a comer balas de algas, mas no começo eu só gostava porque ela gostava. Agora eu gosto de verdade.

Ela deixava eu acrescentar os ingredientes, mexer as coisas e até operar a batedeira sozinha, sob a supervisão dela.

Ela deixava eu arrancar umas lascas do bacalhau no mercado e comer. Super salgado.

Ela sorria enquanto fazia receitas que precisavam de esfarinhar a bancada e suar para sovar massas. Isso fez com que eu nunca achasse nada complicado demais na cozinha.

Ela batia o chá mate no liquidificador para ficar cheio de espuma.

Ela deixava eu verificar sozinha os ovos na caixa, na hora de comprar.

Ela deixava eu comer duas bolas de sorvete na sorveteria.

Ela deixava eu reunir as amigas para fazer comilanças em casa e nunca mencionou a palavra “bagunça”, nem quando eu pedia e nem quando elas iam embora.

Ela sempre me incentivou, me deixou aprender e experimentar as coisas naturalmente, com muita liberdade.

Ela me deu uma infância saudável e cheia de memórias culinárias.

Ela foi uma mãezona de verdade e vivemos intensamente o tempo que tivemos juntas.

Ela partiu muito cedo, muito antes de terminar de me ensinar tudo o que sabia na cozinha e fora dela.

Ela ficaria muito feliz em saber que eu tenho um blog de culinária onde falo um monte de baboseiras e que quase tudo que eu sei “de cozinha” aos 28 anos, é fruto do que vivemos juntas até meus 16.

Ela deixou anotadas, em seu caderno, as receitas que vocês escolheram para o Dia das Mães (na enquete do Facebook) e isso me deixou bastante emocionada. Foi uma feliz escolha.

Ela ainda aquece meu coração quando preciso, é só ir para a cozinha fazer um choconhaque.

Ela me inspira em cada memória e hoje eu vou passar um Feliz Dia das Mães, mergulhada nelas.

Um Dia das Mães Feliz, para você também! 🙂

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Quem escreve

Criei este blog em 2007 como quem não quer nada e ele se tornou a melhor coisa que já fiz na vida! Aqui eu compartilho tudo o que sei sobre culinária, conto minhas histórias e ajudo quem precisa das primeiras lições na cozinha.

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