Sisos, comidas pastosas, dor e fome

Tirei dois dentes sisos meio complicados há uns dias e precisei de ajuda para me alimentar. Sou eu quem cozinha na minha casa e não estava em condições de fazer esse tipo de tarefa por alguns dias. Meu estômago, no entanto, ficou indiferente aos fatos e roncava forte pedindo comida. Não servia sorvete, suco, vitamina ou gelatina. Tinha que ser comida salgada, ele dizia.

Quando você está debilitado, tudo o que quer é que alguém possa cuidar de você, preparando uma refeição adequada às suas necessidades e, neste caso, às suas possibilidades de mastigação. Ao dizer isso em outras palavras (“Como faz falta ter uma mãe nessas horas”), acabei tocando o coração do namorado, que resolveu tomar providências na cozinha.

Dei algumas orientações do que ele devia trazer do hortifruti, já simplificando a tarefa: inhame, abóbora, batatas, tudo já descascado e picado, naquelas embalagens à vácuo. Pedi que trouxesse alho descascado, para agilizar a vida. Do sofá, eu ia dando as orientações, passo a passo: “Esprema uns 9 dentes de alho, vai ser suficiente para tudo. Coloque a primeira panela no fogo, adicione o azeite e uma colherzinha de alho. Quando dourar, coloque a batata-baroa (mandioquinha), um pouco de sal e deixe até que ela fique amarelinha e cheirosa. Depois, coloque um pouco de água e tampe. Abaixe o fogo”.

“Calma, uma coisa de cada vez!” – ele pediu.

“Tá bom. Coloque na panela o azeite e o alho para dourar.”

“Pronto. Já coloquei o azeite e o alho na panela. Posso ligar o fogo?” – ele perguntou animado lá da cozinha.

Pensei: “Não expliquei que deveria ter acendido o fogo antes de colocar o azeite e nem que o alho deveria ter entrado na panela com o azeite quente. Isso não é tão óbvio assim. Ok, acho que vai dar certo”.

“Pode ligar!” – eu respondi.

Alguns segundos depois, ouvi de lá:

“Hum, esse cheiro de alho é muito bom, né?”

“Maravilhoso.”

Como é bom quando a pessoa encarregada está curtindo a tarefa, rs! Mais alguns segundos se passaram e eu falei:

“Bruno, deixa o pacotinho de batatas aberto ao lado para você colocar assim que começar a dourar o alho.”

Silêncio. Nenhuma resposta, só se ouvia o barulho das batatas caindo dentro da panela e depois sendo mexidas. Aquela luzinha esperta acendeu na minha mente e resolvi dar um pulo na cozinha, para ver se estava tudo indo bem.

Encontrei meu namorado cozinhando com a maior vontade de acertar. Tinham 9 dentes de alho naquela panela (!) e todos queimados. A batata não estava amarelinha como deveria e sim marrom, por causa do refogado que “dourou rápido demais”. Dei aquela risadinha que não quer desanimar um iniciante e nem ser mal agradecida, mas que ao mesmo tempo esconde a decepção de não ter uma comida boa por vir e o quanto é difícil ser a única pessoa que cozinha na casa.

Expliquei que não era para ter usado o alho todo de uma vez e que ele queima muito rápido, por isso não poderia demorar a colocar as batatas na panela depois de dourados e, depois disso, ainda precisaria mexer para tirá-los o quanto possível do fundo. Disse ainda:

“No inhame você já sabe e vai dar certo!”

Sem pressão, rs!

Deu certo. A batata-baroa ficou bem estranha (comi mesmo assim), mas o inhame ficou ótimo.

Depois que isso aconteceu e que comecei a me recuperar melhor, fiquei pensando como que uma pessoa que não tem a menor experiência com cozinha se vira diante de uma receita. No caso, nem era uma receita simples no papel, eu estava ali dando explicações extras e, mesmo assim, faltava muito para que ele pudesse executar a tarefa com sucesso. Esse questionamento é até antigo na minha vida, sempre falo sobre isso no blog, que receitas não ensinam. Mas, de certa forma, aquele ocorrido me fez querer escrever um post especial sobre o assunto. Seria este, mas resolvi continuar o assunto no próximo post, deixando aqui só esta pequena história.

Você deve estar se perguntando: “Mas ele não lê o Socorro na Cozinha?”. Eu respondo: “Lê, mas nos dias normais da vida, falta aquela vontade de aprender. Santo de casa não faz milagre!”.

Agora eu vou aproveitar a oportunidade e listar aqui alguns posts no blog que me parecem apropriados para situações como a que eu passei. Não só para quem estiver no meu lugar, mas principalmente para quem vai precisar providenciar comida pastosa, mas gostosa! Ah, precisa ver se o dentista também vai dar recomendações quanto à temperatura. No caso de uma cirurgia como a minha, não pode comer quente.

Como fazer uma sopa simples de um legume

Como fazer sopa de ervilha

Como fazer purê de banana-da-terra

Como fazer purê de batata

Como fazer lentilha – eu fiz da vermelha e deixei cozinhar bem, até virar uma papa. Delícia!

Como fazer feijão – batidinho e acompanhado de um purê de batata, é a alegria dos comedores de papinha!

Como fazer guacamole

Como fazer angu / polenta

Como fazer papinha de bacalhau – olha que chic!

Como fazer mingau de maisena

Como fazer vitamina de abacate

Como fazer gelatina

Como fazer gelatina rosa – com leite de coco e leite condensado!

Como fazer mousse de limão – bem melhor que sorvete…

Vamos falar da questão das receitas no próximo post! 😉

Ah, claro que eu achei bem melhor usar uma foto de banco de imagem para ilustrar este post do que estampar a minha cara inchada. Ela ficou bizarra, mas já está voltando ao normal, rs!

Photo credit: rtadlock via Foter.com / CC BY

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Quem escreve

Criei este blog em 2007 como quem não quer nada e ele se tornou a melhor coisa que já fiz na vida! Aqui eu compartilho tudo o que sei sobre culinária, conto minhas histórias e ajudo quem precisa das primeiras lições na cozinha.

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