Tem sempre um bicho na berinjela!

Eu me lembro muito bem da primeira vez em que comi uma berinjela na vida. Foi num restaurante, com a minha mãe (se você ainda não ouviu falar dela, este post explica a nossa relação).

Isso aconteceu lá pelos meus 9 ou 10 anos, mas me lembro bem desse dia. Minha mãe tinha ido jantar nesse lugar com um moço que estava tentando conquistá-la (esta é a visão de uma filha, não tem compromisso com a realidade) e pensou: “Preciso trazer a Vanessa aqui para comer isso”. Então, num outro dia, fomos juntas fazer um programa noturno, com a finalidade de comer a tal berinjela.

De fato, eu amei aquilo. Era uma berinjela recheada maravilhosa, tinha molho de tomate e um queijo gratinado por cima. Por dentro, ela era macia e suculenta, e cada pedaço que eu comia, enchia minha boquinha ainda pequena de um sabor que eu nunca vou me esquecer.

Daquele dia em diante, costumávamos muito preparar berinjelas recheadas em casa, inspiradas naquela do restaurante. O mais interessante era que nós fazíamos no micro-ondas e ficava excelente (mesmo sem gratinar o queijo, porque o micro-ondas só o derretia).

Muitos anos depois (aos 26) e não tendo mais comido boas berinjelas recheadas como aquelas, deixei a casa da minha avó (onde vivi 8 anos) e fui morar sozinha. Logo nas primeiras semanas, resolvi fazer aquela velha receita. Essas comidas cheias de lembranças me fazem muito bem, além de me ajudarem a matar a saudade – não estava sendo fácil viver só pela primeira vez.

No mercado, encontrei um molho de tomate com berinjela (!) e resolvi apostar nele. Escolhi umas berinjelas que pareciam estar boas, peguei os outros ingredientes e fui para a cozinha.

Comecei cortando ao meio (“de comprido”), ficando com duas canoinhas. Tirei a polpa de cada uma das metades com uma colher e coloquei tudo num potinho, onde juntei o molho para fazer uma misturinha bem temperada e voltar com tudo isso para dentro da casca, para cobrir com queijo e cozinhar.

Foi quando eu vi um bicho fugindo de dentro da tigela, se rastejando e deixando aquele rastro gostoso de molho de tomate por onde ia. Não sabia o que era aquilo exatamente, mas parecia uma larvinha.

Primeiro dei um escândalo, claro, e depois fui armar um barraco na Internet. Como toda dona de casa revoltada quando acha alguma coisa errada em um produto que comprou, escrevi um textão, tirei uma foto e publiquei para que o mundo todo pudesse ver o absurdo que tinha acontecido comigo.

Já estava meio desconfiada da marca daquele molho que eu havia comprado (é, porque um tempinho antes, tinham achado pelos de roedores em amostras de um ketchup deles), então imediatamente coloquei a culpa no fabricante. Sem convidar o Tico e o Teco para debaterem sobre o ocorrido, achei muito razoável que aquele ser vivo estivesse respirando dentro de uma embalagem completamente vedada. Vai que ele consome pouquinho ar e consegue sobreviver uns dias ali dentro? Achei isso tão aceitável que nem percebi que tinha alguma coisa errada na minha conclusão.

Depois de muitas pessoas quase morrerem de nojo com o meu post, uma alma iluminada (e experiente) resolveu fazer a seguinte pergunta:

“Você não tinha colocado a berinjela nessa mesma tigela, antes?”

É. Eu não só tinha colocado a berinjela ali, como tinha meio que colocado junto.

Posicionei meu rabinho entre as pernas e assumi que não pensava havia cometido um engano. Poderia ter ligado para o SAC daquela empresa, mas fui barraqueira e paguei esse micão.

Depois que isso aconteceu, comecei a ficar mais esperta com as berinjelas. Só que cada vez que eu cortava uma prestando atenção, encontrava um bicho. Isso foi tomando uma proporção tal, que o tamanho dos pedaços só foi encolhendo, por segurança. E aí, quanto mais fino eu fatiava, mais bicho eu achava!

A conclusão lógica foi de que eu estava achando mais bichos porque estava visualizando cada vez mais a berinjela por dentro. Outra forma de interpretar: enquanto eu não analisava tanto a berinjela, estava comendo bicho sem saber!

Você deve estar pensando: “Será? Não é possível”.

Para proteger meus queridos leitores de comerem bichos involuntariamente, resolvi fazer um vídeo mostrando o que acontece quando você corta a berinjela com atenção. Usei apenas 3 berinjelas muito bem escolhidas, veja o que aconteceu:

Eu sei, eu sei. Também senti isso no começo. Não somos capazes de dizer quantos bichos já comemos, mas agora podemos eliminá-los da nossa alimentação. É claro que você pode continuar comendo bichos, se assim quiser. Eu só quis alertar aqueles que gostariam de evitá-los.

Ah, o convite para explicar que bicho é esse que tanto ama berinjela e o que é aquela coisinha preta que ele faz, se estende aqui para o blog. Os comentários estão abertos para alguém ajudar, mas enquanto isso vou continuar chamando de “larva”.

Como você viu, a história não acabou quando o vídeo terminou.

Depois de terminar de gravar e arrumar a bagunça que fiz na cozinha, estava morta de sono e precisava dormir para acordar duas horas depois e sair para trabalhar. No desespero de me arrumar e cair na cama, acabei esquecendo que precisava tirar o lixo, onde tinha uma sacola plástica amarrada, mas cheia de pedaços de berinjela e larvas vivas.

Dormi, acordei em cima da hora de sair e fui walking dead para o trabalho. Tive um dia da-que-les, morta de sono e desesperada para chegar em casa logo. Quando cheguei, é claro que esqueci de tirar o lixo, de novo. (Não façam isso em casa, ele precisa sair todos os dias.)

No dia seguinte, pela manhã, consegui voltar um pouco à razão e acabei olhando para dentro do meu tanque, por um acaso. Adivinha quem estava lá??? Aquela larva grandona que eu mostrei no vídeo, que não colocou nem a cabecinha na janela para dar um “oi” para a câmera. Ela era realmente grande: tinha uns 2 cm e era gorda!

A bicha saiu de dentro da berinjela, de dentro do saco plástico, de dentro da lixeira e andou pelo menos 1 metro até conseguir chegar ao tanque, que ainda precisava ser escalado! Agora… E as outras? Onde será que elas estão neste momento?

Para concluir esta história, eu gostaria só de acrescentar duas coisas:

1) Suma com o bicho de alguma forma de dentro de casa, a menos que queira tomar um café com ele mais tarde;

2) Sinto muita, mas muita saudade daquela berinjela recheada. <3

Mostre isso pro mundo:

Quem escreve

Criei este blog em 2007 como quem não quer nada e ele se tornou a melhor coisa que já fiz na vida! Aqui eu compartilho tudo o que sei sobre culinária, conto minhas histórias e ajudo quem precisa das primeiras lições na cozinha.

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  • gab

    Ultimamente tô perdendo a confianças nessas beringelas. Qndo olho são saudáveis por dentro são bichos as. ECÁ bem grande..

  • Milla

    Adorei!! Passei por isso ontem e achei que a culpa era do meu pai (achei que ele não tinha escolhido bem). Definitivamente não vai rolar comer berinjela.
    Um abraço.
    Parabéns.

  • Esdras

    A broca pequena do tomateiro (Neoleucinodes elegantalis) é uma excelente fonte de vitamina B3, aconselho comê-las levemente cozidas no vapor, para não perder nutrientes.